O uso de derivados da morfina pode se tornar uma questão de saúde pública no Brasil?

30-10-2019
Margareth Cunha

A problemática da prescrição de analgésicos opióides para tratamento da dor crônica

 

Um breve histórico

Há 2 anos o governo norte-americano fez um pronunciamento sobre a grave epidemia causada pelo uso excessivo de analgésicos opióides. Naquela ocasião, o órgão que monitora casos de dependência de drogas naquele país apontou que 90 pessoas morreram por overdose em um mês.

Diante de uma situação tão delicada, a incidência de viciados em opióides passou a ser tratado como prioridade. Como resultado, medidas foram tomadas para controlar sua venda.

Desde então, os fabricantes se viram obrigados a buscar em outros mercados e encontraram no Brasil um grande potencial.

A prescrição de opióides no Brasil ainda é muito baixa em relação ao resto do mundo. Um dos motivos é a proibição do cultivo da planta utilizada para se extrair o ópio. Por outro lado, os médicos ainda são cautelosos ao prescrever derivados de ópio, devido ao seu alto potencial aditivo.

 

O que dizem os especialistas na área?

A grande vantagem dos opióides é que eles atuam no bloqueio da sensação dolorosa e variam apenas na potência analgésica. Em contrapartida, seus efeitos resultam em sensações de euforia e relaxamento que podem parecer muito agradáveis ao usuário.

Até então, seria ótimo se eles não fossem extremamente viciantes. Dados publicados pelo governo americano apontam que, em 2017, existiam 2 milhões de dependentes nos Estados Unidos.

Embora seu uso racional seja plenamente justificado em casos de dores de origem oncológica, queimaduras extensas da pele ou politraumatismos, os opióides nunca foram isentos de riscos.

De acordo com o psiquiatra Danilo Baltieri, especialista em dependência química da Faculdade de Medicina do ABC, “Se a medicina indica, os opióides devem ser usados, sim”, afirma de forma categórica.

Ao analisar a relação risco-benefício, podemos concluir que desde que seja prescrito e usado com cautela, a chance de alguém que toma um opióide se viciar, deve ser a menor possível.

Em uma posição mais alarmante, o psiquiatra Arthur Guerra, coordenador do Programa de Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da USP diz que “Nós temos visto cada vez mais casos. Em geral, são problemas gravíssimos”.

 

O outro lado

O laboratório Mundipharma, principal fabricante da oxicodona, sob o nome comercial OxyContin®, atualmente vendido no Brasil, chama atenção ao fato de existirem 80 milhões de pessoas sofrendo de dores crônicas em nosso país. Ou seja, no contexto farmacoeconômico, representamos um mercado consumidor vasto e pouco explorado.

Notícias publicadas na página do fabricante apresentam estudos que indicam o uso do seu produto para dores moderadas a grave. No entanto o uso deste fármaco é expressamente desconsiderado para dor crônica pelos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas, publicado pelo Ministério da Saúde.

Tal fato nos leva a crer que a não recomendação deste medicamento é certamente vinculada a sua capacidade de causar vício pela falta de acompanhamento médico durante o tratamento.

 

O que pode estar por vir?

O Brasil é um dos países que menos consome opióides no mundo. Com o mercado brasileiro na mira dos fabricantes, nosso sistema de saúde deve preparar seus médicos para uma enxurrada de representantes comerciais, munidos de estudos em panfletos, favoráveis ao uso desse tipo de medicamento.

De acordo com a Sociedade Brasileira para Estudos da Dor, diferentemente dos médicos americanos, os brasileiros não possuem como hábito a prescrição indiscriminada de opióides até o momento.

Além disso, conforme a Portaria 344/98 da ANVISA, que aprova o Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial, a oxicodona pode ser dispensada mediante apresentação e retenção de uma das vias do receituário na farmácia.

Neste caso, cabe lembrar que este tipo de receituário não passa pelo controle impressão dos demais medicamentos psicotrópicos, que são conhecidos pela tarja preta em suas embalagens. Tal fato, ainda predispõe a falsificação da receita médica, uma vez que basta ao usuário entregar uma folha de sulfite não-padronizado com os dados do médico, o nome da droga e posologia.

 

O que nós farmacêuticos devemos fazer diante desse problema?

Na graduação do Curso de Farmácia, aprendemos que a Assistência Farmacêutica é baseada em informações provenientes da literatura científica. As informações provenientes de revistas indexadas são as que apresentam os melhores critérios para esta finalidade.

Ainda, estudos clínicos publicados nesses artigos devem oferecer dados fidedignos e isentos do viés mercadológico.

Diante disso, a orientação farmacêutica na dispensação de medicamentos para tratamento de dores deve ser acompanhada de uma visão criteriosa.  Para auxiliar, seguem algumas precauções a seguir:

  • Checagem da autenticidade das receitas médicas;
  • Frequência de apresentação dessas receitas;
  • Verificar se existe o registro do prescritor no CRM ou CRO;
  • Fazer contato com este profissional em casos de alta recorrência da prescrição a um mesmo paciente ou comprador.

 

Autor: Professor Msc. Alexandre Rodrigues

 

Para saber mais

Margareth Cunha

Margareth Cunha

Mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade de Mogi das Cruzes e Especializada em Docência no Ensino Superior pela Universidade Brazcubas. Atualmente atua como Coordenadora do Curso de Farmácia da Brazcubas.

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