Café tem sabor de bom dia!

10-03-2020
Margareth Cunha

Dentre inúmeros costumes e comportamentos que definem a personalidade das pessoas, eu costumo dividir mentalmente a humanidade entre quem toma ou não café. Isso porque eu considero essencial que as pessoas naveguem pelos efeitos das xantinas, classificação química do principal ingrediente do café, a cafeína. Numa escala de felicidade, eu seguramente coloco o primeiro café do dia no meu top 10. Como neurocientista, a cada gole daquela infusão quente de tonalidade marrom escura e amarga, eu devaneio nos processos fisiológicos e neuroquímicos que ocorrem no nosso sistema nervoso central quando sob a ação do café.

Sobretudo de manhã, quando nosso cérebro se prepara para enfrentar o dia, neurônios do sistema reticular sinalizam ao indivíduo que basicamente o cérebro não pode “desligar” dali em diante, e essa sinalização depende do sistema que é alterado pela cafeína, ou sistema purinérgico. Sucintamente, a sinalização purinérgica provoca sono, e portanto, é hipnótica para o indivíduo, mas o bloqueio deste processo reverte esse efeito, e é exatamente isso que a cafeína faz. Essa sinalização é a linguagem universal do cérebro, usada pelos neurônios que conversam entre si determinando alterações na atividade dos seus principais sistemas. A conversa é “papo reto”, não precisa de tradução ou interpretes pois o cérebro é muito eficiente no quesito comunicação. Se fizermos uma analogia com o método utilizado por empresas para transmitir informações, o cérebro é, sem dúvida, um dos mais eficientes sistemas de PABX que existe na natureza. Se conversar com um ramal diretamente não for suficiente, o cérebro organiza reuniões com membros externos – o café – e, ao contrário das reuniões que nós insistimos em fazer e que muitas vezes decepcionam e não resolvem nada, o cérebro efetivamente apresenta dentro de frações de segundos mudanças no nosso comportamento. Por vezes, tentamos emular as virtudes da nossa máquina biológica em transmitir informações para nosso grupo de trabalho mas é comum nos frustramos com nossa incrível capacidade de reunir funcionários e submetê-los a seções monótonas e ineficazes de resolução de problemas.

O café consegue potencializar os processos de comunicação neuronal, já efetivos sem sua presença, que determinam a vigília e inibem o sono, provocando uma agradável excitação. Assim, de maneira contundente, ele é capaz de melhorar os processos cognitivos, o raciocínio crítico, a tomada de decisão além de induzir alterações benéficas no sistema nervoso autônomo que controlará parâmetros involuntários como os cardíacos, respiratórios e intestinais.

Fora todos esses efeitos, o nosso sistema de recompensa será ativado, o que provocará prazer no indivíduo. Este reforço positivo retroalimenta nossa vontade em buscar novamente o café na manhã seguinte, sem contudo, provocar dependência ou síndrome de abstinência grave. Neste sentido, podemos ponderar que o membro externo da reunião que o cérebro tão efetivamente organiza, além de ajudar no plano de atividades da equipe (excitação neuronal), traz um bônus financeiro (prazer) para os indivíduos cujos neurônios realizam a tarefa. Admitidamente, algumas pessoas podem apresentar efeitos adversos subjacentes a privação da cafeína, como irritabilidade, dores de cabeça e ansiedade. Assim, parece que a equipe se torna de um certo modo dependente do membro externo para todas as reuniões, mas isso acontece quando ingerida em excesso, e sempre é possível voltar a efetividade do trabalho sem a presença daquele funcionário, ou seja, o cérebro pode até se “acomodar” mas não se esquece como é capaz de se moldar aos desafios aos quais somos submetidos diariamente.

Se um genuíno bom dia pudesse ter um sabor, arriscaria ser o do café. A necessidade de ajustar os desafios diários com o aumento da atividade do sistema nervoso casa perfeitamente com a ingestão desta infusão escura cujo aroma aquece até o mais difícil despertar; razão essa que o laureia como uma substância amplamente consumida mundo afora. Sendo assim, além desta sinérgica relação, nosso sistema nervoso cria pretextos para seu consumo de acordo com a arquitetura dos nossos neurônios. Já que a rede neural integra distintas modalidades sensoriais, o simples aroma do café, muitas vezes serve como ímpeto para o indivíduo despertar mais prazerosamente, na antecipação do seu consumo.

Para finalizar, é implacável a lei do equilíbrio, e mesmo não se tratando de uma narrativa propagandista, se essa crônica te convenceu a consumir café, faça-o com moderação, pois tudo que desequilibra (ou reequilibra) quimicamente o cérebro pode levar a efeitos indesejáveis quando em excesso. A nível de curiosidade, redigi esse texto sob efeito do café em 40 min devido a fluidez literária que inundou meu córtex cerebral. Sendo assim, o bloqueio do sistema purinérgico pelo café proporcionou efetividade na integração de diversos conceitos, exemplos e analogias relacionadas a ingestão de cafeína. Importante destacar que o café não é nenhum super-herói que cria, por geração espontânea, inteligência, robustez textual ou raciocínio num indivíduo, assim, o mesmo texto poderia ter sido concebido, sem influências exógenas, mas levaria talvez mais de duas horas para ser finalizado. E você, já tomou seu café hoje? Bom dia.

Por Prof. Dr. Diego Mascarenhas

Margareth Cunha

Margareth Cunha

Mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade de Mogi das Cruzes e Especializada em Docência no Ensino Superior pela Universidade Brazcubas. Atualmente atua como Coordenadora do Curso de Farmácia da Brazcubas.

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